sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mike









Meu gato e filho, Mike, faleceu sábado, 4 de setembro, às 22h, dentro de uma mochila no meu colo. Ele tinha seis meses e eu o adotei há três. A causa da morte foi pif, peritonite infecciosa felina. Ele não teve e nem terá autópsia. Sei que é errado, mas o deixei no mar. 
Foi a forma mais digna que achei para me despedir. 




O que segue, não é uma pretensão jornalística investigativa, e sim um desabafo. Não darei nomes aos bois. seria uma atitude mesquinha e pequena depois do que aconteceu. Meu desabafo é com a profissional que o diagnosticou com verme, sem pedir NENHUM exame, fezes, sangue, nada. Leigo, confiei na profissional e segui o medicamento indicado por ela. Três semanas depois, nenhuma melhora. Resolvi ligar novamente e a sugestão dela foi deixa-lo no soro, ela garantiu melhora depois disso. Fui no sábado, e por ironia do destino, a mesma teve que sair da clínica com problemas particulares. 








Uma amiga indicou e fomos em uma emergência 24h, esta com médicos preparados e principalmente, mais responsáveis. O pif não foi diagnosticado, os exames ainda estão no laboratório. Mas o que houve em seguinda confirma a doença. A primeira medida, foi a drenagem de bastante líquido localizado no abdômen.








É grave, muito grave. Disse o médico. 



Pif é uma doença das mais difíceis de diagnosticar. Daí preocupação e profissionalismo deste veterinário, que ligou para três colegas de trabalho, relatou os sintomas e pediu opiniões.  O dálmata da minha amiga nos acompanhou, e talvez pressentindo o que estava por vir, não parava de chorar e me lamber


Uma especialista em ultrassom foi chamada, e chegou em 20 minutos. O exame foi feito e não houve constatação de ruptura na bexiga, o que evidenciava ainda mais o pif. Coletaram sangue e urina, e um antibiótico foi aplicado. Meu filho ficou totalmente grogue.





Me indicaram outra clinica em Botafogo especialista na doença. Passei em casa e pesquisei sobre a pif. Li que causava convulsões. Cinco minutos depois, Mike estava tendo espasmos. Fiquei desesperado e liguei para clínica em Botafogo, onde a veterinária disse que a pif estava atacando o sistema nervoso, não tinha mais jeito. 


Mesmo assim, resolvi tentar, e já na rua esperando um táxi  fui informado que a clínica apenas aceitava cheque e dinheiro vivo. Eu não tinha o suficiente no bolso para a consulta, somente para o táxi e não uso cheque. Recebo uma ligação da minha mãe, preocupadíssima com a situação, oferece cheque, cartão, dólar, brincos, o que fosse. Mãe é mãe. Ela estava em um aniversário aqui do lado, cinco minutos a pé. Fui andando depressa. os espasmos não paravam. Peguei o elevador, os espamos cessaram. Um rosto pálido e sem vida de olhos revirados tomaram o lugar da face meiga e afetuosa que eu conhecia. o corpo começou a esfriar. 



Tentei não tocar a campainha. estragar a festa de uma pessoa queridíssima que me viu nascer. mas eu estava desesperado. não sabia o que fazer. e pedi ajuda. acho que minha mãe teve um trauma duplo naquela noite. Implorei para que não a deixassem sair e ver o Mike. Ela viu, e sofreu por ele e por mim que estava sem chão.


A idéia de deixa-lo no mar apareceu, e minha  tia, que também estava no aniversário, foi comigo. Peguei seu corpo já frio, dei um beijo e falei coisas que só nós dois sabemos.



















A questão é: eu precisava passar por tudo isso? Mesmo se a incompetente citada no início do texto tivesse sido mais responsável, ele não teria sobrevivido, pif não tem cura. Mas com medicamentos e cuidados adequados, poderia ter uma sobrevida maior, de 10 meses no máximo. E o que mais me revolta, ele não precisava sofrer tanto. Nem eu, nem minha mãe e nem todas as pessoas já cientes do fato que também sofreram com a notícia. Ele poderia ter sido sacrificado, sem sofrimento e dor. É inadmissível que algo deste tipo aconteça com outra pessoa por inexperiência, incompetência e preguiça profissional. Talvez eu esteja escrevendo tudo isso como uma forma de alertar e talvez me livrar de uma culpa, o que é normal depois de uma perda. Não sei se cabe processo e nem quero saber. Nenhum ressarcimento financeiro vai traze-lo de volta. Mas profissionais que cuidam de uma vida, humana ou felina, precisam ser mais responsáveis e cuidadosos.




Como nem tudo são lágrimas, posso afirmar que o Mike só trouxe coisas boas desde que chegou. Foi amado e muito bem cuidado. Cumpriu seu papel e agora está em paz.